Assédio Moral – nova modalidade de violência cotidiana

Assédio Moral – Uma nova violência cotidiana

Já ouviu falar de empresa que força funcionários a vestir chapéu de burro por mal desempenho? Ou que isola o funcionário para forçá-lo a pedir demissão? E aquele chefe que pede metas confusas e contraditórias – e depois “desconta” no funcionário? São diferentes tipos de Assédio Moral no trabalho.

O Assédio Moral guarda estreita relação com o Bullying e com o Cyber-Bulliyng, eis que todos atacam a dignidade da pessoa vitimada (lembram do texto sobre a Dignidade da Pessoa Humana?). O Assédio Moral é vil e pernicioso justamente por atacar a dignidade da pessoa humana!!!

Assediar significa cercar, rondar, sitiar. Daí, já percebemos que para se tratar de assédio moral é preciso que fatos ocorram continuadamente, e não seja apenas um incidente isolado.

Ou seja, uma briga e chamar de burro é uma ofensa, mas não assédio. Esta é uma característica essencial do assédio: ele cerca, cerca, mas não se esgota. Prolonga pelo tempo, como uma corda de violino esticada ao extremo, sempre prestes a romper. Esta situação debilita a vítima, que passa a acreditar nos argumentos do assediador e passa a se questionar sobre sua capacidade, e sobre a imagem que terceiros têm dela.

Então, temos já 3 tipos de atores no assédio moral: o agressor, a vítima e os “by-standers” – a “platéia”.

O agressor é aquele que busca maliciosamente a agressão continuada e camuflada, a conta-gotas, para que a vítima caia em sua “teia” e assim sofra com a situação. Os “by-standers” apenas observam a situação, por vezes rindo de deboches do agressor, o que legitima a posição dele sobre a vítima. Alguns “by-standers” pensam “melhor que peguem a vítima para Cristo do que eu”. Outros são perversos como o agressor e se satisfazem com o sofrimento alheio, transformado a situação em verdadeiro “mobbing”. Percebam que a ação dos “by-standers” é estranha à cidadania, pois o bem estar coletivo é um direito de todos. E “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à injustiça em todo lugar” (Martin Luther King – ver piada no final do post!).

mobbing

Mobbing: ataque de um grupo sobre um indivíduo

O Assédio Moral, assim, é um jogo sutil de atos, palavras, meneios e gestos que agride dentro do contexto que os atores se encontram, e que se fosse observado isoladamente provavelmente nem uma agressão seria.

Um exemplo simples é colocar “apelidos”. Por exemplo “loira burrinha”, “gordinho”, “escurinho”. Dito uma vez soa como uma agressão, dito todo dia é assédio moral. A prática subtrai dignidade da vítima ao diminuir sua condição ao apelido jocoso.

O assédio moral é um assunto atualíssimo, pois o Direito tem dificuldade em tratar da questão. A psicologia tem facilidade em receber as informações em terapia, mas o Direito precisa de elementos de prova para poder decidir um caso.

Neste sentido, muitos estudiosos de várias áreas têm estudado o tema, em alguns países até criando leis.

Aqui no Brasil, poucos municípios e estados têm leis específicas sobre assédio moral, e merece destaque o Projeto de Lei Federal do Deputado Aldo Rebelo n. 6.625/09, do qual reproduzimos um trecho bem ilustrativo sobre o tema:

PL 6625/09 Aldo Rebelo http://www.camara.gov.br/sileg/integras/726048.pdf […] Art. 4º. Sem prejuízo do disposto no art. 3º, são ações que caracterizam o assédio moral: a) tratar de forma preconceituosa condições de gênero, etnia e opção sexual; b) sonegar informações de interesse comum, de forma insistente; c) obstruir o exercício profissional, por intermédio da retirada e sonegação imotivada de materiais e equipamentos necessários ao desenvolvimento das tarefas; d) divulgar informações maliciosas a respeito do empregado no ambiente de trabalho; e) apropriar-se do crédito de idéias, propostas, projetos ou de qualquer trabalho de subordinado ou de colega de trabalho; f) valer-se de ordens e orientações confusas ou contraditórias com a finalidade de induzir empregado a erro; g) explorar fragilidades físicas e psíquicas do empregado em qualquer momento; h) desrespeitar limites decorrentes de condições de deficiência física e mental impondo ao trabalhador deficiente tarefas inadequadas; i) designar para o exercício de funções triviais o empregado de funções técnicas, especializadas, ou aquelas para as quais, de qualquer forma, exijam treinamento e conhecimentos específicos; j) transferir imotivadamente o empregado do ambiente de trabalho, turno, setor, sala ou localidade; k) sugerir ou induzir pedido de demissão a subordinado; l) manter o empregado em condições precárias de segurança e saúde para o exercício profissional; m) manter o empregado em estado de ociosidade, sem prévia motivação; n) Designar o empregado para exercer função incompatível com o cargo; o) Utilizar, de forma maliciosa, informações sobre estado de saúde física ou mental do empregado; Segue uma lista de livros interessantes sobre o assunto, para quem desejar se aprofundar no tema: ASSÉDIO MORAL: A violência perversa no cotidiano Marie-France Hirigoyen Bertrand Brasil ASSÉDIO MORAL: Um Manual de Sobrevivência Ana Parreira Russel

ASSÉDIO MORAL / ORGANIZACIONAL: Uma Análise da Organização do Trabalho Lis Andréa Pereira Soboll Casa do Psicólogo (edição esgotada, a nova é a da imagem abaixo)

Apesar de toda a atenção que o tema recebe de estudiosos, acredito que o melhor caminho para lidar hoje com o Assédio Moral é a informação e prevenção. Ter conhecimento do que é, onde acontece, quais instrumentos o agressor possui, e o que fazer / a quem recorrer são “botes salva-vidas” neste assunto. Muito melhor evitar problemas de assédio moral do que gastar anos juntando provas e mais outros anos de desgaste em longo processo judicial…. muitas vezes, a auto-estima da vítima é reduzida a ponto de afetar permanentemente sua saúde, suas relações sociais.

Assim, a melhor defesa é a prevenção!! Os três livros indicados são excelentes, o primeiro para conceituar psicologicamente o fenômeno; o segundo como um manual prático e referência; e o terceiro como um aprofundamento nas práticas institucionalizadas de assédio moral – em especial no caso dos bancários. Quem nunca ouviu que gerente de banco tem meta para cumprir e empurra produto que você não precisa? Este livro aborda isto e muito mais … Recomendo fortemente a quem quer saber mais sobre o assunto, e também ler os livros nesta ordem. O primeiro é excelente ao conceituar o fenômeno, com casos reais, daí ser interessante ler primeiro.

Cabe ainda um alerta sobre o tema. De maneira geral, as pessoas têm uma visão preconceituosa do fenômeno, banalizando os fatos, como se o agressor fosse “forte” e a vítima um “fraco”, como se esta visão justificasse a agressão. Isto é o que o agressor busca transmitir aos “by-standers”, no maior estilo “bullying” / intimidação, mas de acordo com o livro de Marie-France Hirigoyen os agressores são “narcisistas perversos” que “sentem uma intensa inveja daqueles que parecem possuir coisas que lhes faltam, ou que simplesmente sabem extrair prazer da vida.” […] Assim, “dirigem a seguir seus ataques à auto-estima, à confiança em si do outro, para aumentar o próprio valor” (livro citado, pp. 146). Ou seja, de acordo com o livro, ambos possuem desequilíbrios, tanto o agressor quanto a vítima, que levam ao fenômeno. O agressor tem necessidade de diminuir a vítima, a vítima é propensa a cair neste tipo de ataque.

O que preocupa é justamente o vazio pessoal levar o agressor à inveja e assim ao assédio, num mundo contemporâneo onde muitos prezam o “ter para ser”, as coisas privadas, as aparências, obviamente deixando de lado necessidades humanas e sociais, o que acaba por levar aos sentimentos de inveja ao ver outro que não liga para o “ter para ser” e consegue ser feliz e realizado desta maneira. Ou seja, não é difícil encontrar ambientes onde apenas é socialmente permitido ser como verdadeiramente é se ostentar uma posição sócio-econômica. Como se felicidade e realização pessoal fossem privilégios de faixas sociais elitizadas. Assim, unir em um mesmo ambiente de trabalho pessoas com perfis de vítima e de agressor seria preparar uma bomba relógio. Pior: em ambientes corporativos é comum ver as formas de assédio como “técnicas de gestão”, quando o que o bom administrador deveria é, verdadeiramente, liderar sua equipe e não dominá-la através da doutrina do medo e da vergonha.

Por último, segue uma matéria sobre o inédito acordo visando ao combate ao assédio moral entre a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) e a Federação Nacional dos Bancos (Febraban).

Sai acordo inédito sobre assédio moral

GABRIELA GARCIA íntegra Dalva Radeschi durante greve de bancários: elogios ao acordo/Crédito: Arquivo/Jornal de Limeira

Entendimento envolve setores patronal e de trabalhadores

A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) e a Federação Nacional dos Bancos (Febraban) assinaram um acordo inédito na quarta-feira com o intuito de combater o assédio moral nos locais de trabalho.

Há um bom tempo, a questão do assédio moral vem sendo debatida pelo Sindicato dos Bancários de Limeira, que comemorou o acordo. “É um fato extremamente positivo. Cria um protocolo de prevenção de conflitos no ambiente de trabalho”, disse a presidente Dalva Radeschi.

Segundo ela, os bancos impõem metas abusivas para os trabalhadores e este acordo é uma das principais conquistas da Campanha Nacional dos Bancários do ano passado. “O acordo irá valorizar o empregado, conscientizar os empresários da necessidade de um local de trabalho sadio e realizará a promoção dos valores ético, moral e legal”, apontou.

A medida também foi vista com bons olhos pelo professor universitário e ex-prefeito de Iracemápolis João Renato Alves Pereira. Quando vereador, em 2000, foi responsável por apresentar projeto de lei na cidade vizinha prevendo penalidades para funcionários públicos que praticassem assédio moral. “Tornou-se a primeira lei no País sobre assédio moral no ambiente de trabalho”, apontou Pereira. “É uma vitória. Espero que as outras categorias consigam isso por meio de seus sindicatos patronais. A próxima etapa é que seja criada uma lei em nível federal para os trabalhadores de setores públicos e privados”.

ACORDO

O presidente da Contraf, Carlos Cordeiro, apontou que o acordo aditivo ao Protocolo para Prevenção de Conflitos no Ambiente de Trabalho prevê adesão espontânea, já confirmada pelo Bradesco, Itaú/Unibanco, Santander, HSBC e Citibank. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal instalaram comitês de ética no ano passado para apurar denúncias de assédio moral.

No acordo, os bancos se comprometem a declarar explicitamente condenação a qualquer ato de assédio e reconhecem que o objetivo é alcançar a valorização de todos os empregados, promovendo o respeito à diversidade, à cooperação e ao trabalho em equipe em um ambiente saudável.

As denúncias deverão ser feitas aos sindicatos e a instituição terá um prazo para apurar os fatos e prestar esclarecimentos. Denúncias anônimas continuarão a ser apuradas pelas entidades, mas fora das regras estabelecidas no acordo com os bancos. (Com Agência Brasil)

A Ratoeira

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o dono da fazenda abrindo um pacote. Guloso como era, pensou logo nos tipos de comida que poderiam estar contidos ali.

Quando percebeu que era uma ratoeira ficou aterrorizado.

Correu aos berros pelo pátio da fazenda advertindo a todos os animais:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!

A galinha disse:

– Sr. Rato, eu entendo que isso seja um problema terrível para o senhor, mas para mim não.

O rato foi então falar com o porco:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!

– Desculpe-me Sr. Rato – disse o porco – mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar pela sua alma.

Fique tranqüilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.

O rato, já desanimando, dirigiu-se à vaca.

Ela lhe disse, às gargalhadas:

– O que Sr. Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!

Triste com a indiferença dos seus companheiros, o rato voltou para a casa, cabisbaixo e abatido, já preparado para encarar a ratoeira do fazendeiro.

Naquela noite ouviu-se um barulho, como o de um rato sendo pego na ratoeira. A mulher do fazendeiro correu para ver se o rato havia sido morto realmente. Como estava escuro, ela não percebeu que a ratoeira tinha prendido na verdade a cauda de uma cobra. A cobra picou a mulher.

O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.O fazendeiro foi então ao galinheiro para providenciar o ingrediente principal. Como a mulher continuava doente, os amigos e parentes vieram visitá-la. Para alimentá-los o fazendeiro matou o porco. A mulher não melhorou, ao contrário, acabou morrendo.

Muitos foram para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca para poder alimentar toda aquela gente.

Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e não der importância por acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se disso: Quando há uma única ratoeira na casa, toda a fazenda corre perigo.

O problema de um é problema de todos quando convivemos em grupo. E a razão do homem não consegue prever todos os desdobramentos possíveis a ponto de decidir com clareza “nunca vai acontecer nada de mal comigo”, apesar de nossa pretensa racionalidade.

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Comments

  1. Pessoal, este post é o mais acessado do blog, já passou de 800 acessos individuais.

    Fico feliz de que as pessoas encontrem utilidade nele.

  2. Muito bom artigo. Tente evitar qualquer forma de assédio em qualquer campo e no trabalho. Se você quiser ler outro artigo sobre esse assunto eu recomendo o seguinte link: http://euquerotrabalho.com/assedio-moral-no-trabalho.html
    Abraços!

  3. Antônio Guerra says:

    Rodrigo,

    Excelente artigo, sobre um tema absolutamente atual.
    Isto ocorre em todos os meios corporativos, sejam
    entidades privadas, públicas ou administrações
    públicas, de todos os tipos juridicos.
    Parabéns mesmo.
    Com certeza muita gente vai refletir a respeito,
    especialmente os agressores e os “by-standers”.
    Há muito mais gente vítima de assédio moral do
    que se imagina.
    Que Deus continue protegendo-o e iluminando-o.
    Beijos

    Antônio Guerra
    ****************

    • Pai, que bom que você gostou!

      A idéia é alertar os leitores … pelo que já estudei sobre o assunto, a melhor arma é, definitivamente, a prevenção. Existem medidas corretivas, mas muito desgastantes.

      Abraço!

      Rodrigo

  4. Guerra, que é o autor deste texto sobre o rato?

    Farei uma apresentação sobre o tema na ETEC onde estudo, e utilizarei o texto. OK?

    Parabéns pelo blog.

  5. Acho que pior que saber que estamos sofrendo de assédio moral é sofrer todos os sintomas deste mal que nos acomete sem saber definir o que é. Digo isso por mim que entrei numa empresa em 2000 sofri assédio moral 8 anos, sentia todos os sintomas e caracteristicas de assédio moral que me levaram a uma tentativa de suicídio,( me sentia como esse rato da história , quando li essa história me encaixei perfeitamente no lugar dele) e eu não conseguia enxergar uma saída.
    Depois de 8 anos de assédio moral e totalmente sequelada psicologicamente pedi para mudar de setor permanecendo nele 6 meses fui assediada sexualmente(horizontal) o qual foi a gota dagua e me levou para ruína. Sem saída como o rato da história recorri a muitas pessoas que em nada me ajudaram, podiam mas não ajudaram por omissão, por falta de solidariedade e porque pimenta.. no dos outros é refresco me perdoe o termo usado, mas só sabe o que é assédio quem já caminhou com ele por muito tempo.
    Enfim… resumindo.. eu fui saber que era assediada moralmente depois de 8 anos quando decidi procurar ajuda pra me livrar dos meus sintomas fisicos e psicológicos, isto quer dizer que!!! Fui parar no psiquiatra, depois em um escritório de advocacia e hoje estou na justiça há 6 meses lutando por uma rescisão direta e uma indenização por dano moral que jamais compensará tudo que passei naquele lugar que era meu trabalho, enquanto que talvez um pedido de desculpas por parte dos chefóes evitaria todo esse transtorno. Minha história é loga e daria um livro, isso foi só um resumo. Abraços.

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